Séries Addict

CSI – A Thousand Days on Earth

Posted on: maio 11, 2008

“Confie mas verifique.” A notória frase que Ronald Reagan adorava proferir era coerente com a situação da época, e com a instituição da desconfiança nas pessoas. Durante a Guerra Fria, seu próprio vizinho podia ser um traidor. Hoje em dia, ele pode ser um assassino, um pedófilo, um traficante de drogas. Os medos mudam, mas o receio nunca vai embora. Desde pequenos somos ensinados a suspeitar, para o nosso próprio bem. Hesitar em acreditar em alguém pode salvar-nos a vida. E em casos daqueles que trabalham na polícia, pode salvar a vida de outros.
Mas onde exatamente fica a linha entre desconfiar e perseguir, pré-julgar e condenar uma pessoa sem dar-lhe chance de defesa? Essa pergunta atravessou minha mente enquanto os últimos minutos de A Thousand Days On Earth desdobravam-se frente a meus olhos.
Uma criança morta. Uma cobertura midiática massiva. Uma grande comoção pública e até mesmo por parte de quem investiga o crime, nesse caso Catherine, que torna tudo pessoal. Pessoal demais?
Meu coração se contorce toda vez que CSI aborda a morte de uma criança. Feeling the Heat, episódio da quarta temporada que já começa com um bebêzinho sendo encontrado morto, sozinho dentro de um carro num calor de mais de quarenta graus (e só piora depois daí), foi um dos mais difíceis de se assistir. Justice is Served, no qual uma menina de seis anos é assassinada pela própria mãe num parque de diversões, não foi nenhum pouco mais digerível. E já que lembrei-me dele, devo mencionar que o episódio da primeira temporada tem semelhanças gritantes com esse aqui.
Em Justice is Served, cujo roteiro também pertence parcialmente a Anthony E. Zuiker (em ambos os casos havia um segundo roteirista), Catherine, pessoalmente afetada por ser mãe (e naquela época Lindsey tinha uma idade muito aproximada a da vítima), também trabalha o caso de maneira dura, sendo particularmente severa contra um suspeito com antecedentes em crimes sexuais relacionados a menores. Perturbada, ela jurou atormentar o suspeito até conseguir provar sua culpa. Do mesmo jeito que fez a Leo Finley nesse décimo terceiro episódio da oitava temporada. Ambos eram inocentes.
Mas meu ponto é, Catherine fez a coisa errada? Esqueçamos por um momento que ela é apenas um personagem de ficção, assim como facilmente esquecemos (eu, pelo menos, esqueci), que aquela criança terrivelmente machucada na mesa do necrotério não é real. É fácil demais deixar-se levar por uma tragédia dessas. A linha entre sede de justiça e assédio é muito tênue, mas pode ser um tanto opaca quando o que está do outro lado é a vida de um estranho no qual simplesmente não conseguimos confiar. E às vezes está em nosso poder destruir essa vida.
Quando Catherine foi abordada por Leo no estacionamento, eu fiquei tensa. Achei que ele a atacaria ou ameaçaria. Mas assim seria fácil demais, não? Com Catherine posta no lugar de vítima, ela e nós todos ficaríamos bem com tudo o que aconteceu, julgando que Finley teve o quê mereceu. Mas o quê ele fez foi apenas evidenciar uma culpa que eu sequer tinha pensado em associar a Catherine. Para sermos mais justos, ninguém no laboratório estava exatamente tentando para-la, e os interrogatórios de Brass foram tão duros quanto a linha de investigação que apesar de comandada por ela, não foi toda realizada pela loura.
E depois de descoberta a culpabilidade do padrasto, a regra da condescendência não exatamente entrou em vigor. A suposição da culpa, novamente associada a um histórico desfavorável, foi mais forte e uma mulher inocente morre. No final, Inez e Gracie se foram e a vida de Boyd está completamente destruída. A de Leo também.
Às vezes, julgamos rápido demais. Chame de instinto de sobrevivência ou do que quiserem, ninguém vai acordar amanhã e decidir dar a mão à palmatória. Mesmo na instituição policial, que deveria ser imparcial, às vezes imparcial demais é ruim. O fator humano, raiva, indignação, ás vezes vêm a calhar. Às vezes não. Atiramos pedras e nos surpreendemos com os efeitos. Seria bom se conseguíssemos acertar sempre. Mas não conseguimos.

Texto publicado originalmente no TeleSéries.

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