Séries Addict

Posts Tagged ‘Machado de Assis

Chega ao fim a belíssima microssérie de Luis Fernando de Carvalho. E esse último capítulo pode não ter sido meu favorito (de todos, elejo o segundo), mas seguiu o padrão de qualidade do resto da série e honrou uma das partes principais do romance de Machado de Assis, a questão da traição de Capitu.
Já no começo do episódio vemos que os ciúmes ainda atormentam Bentinho. Também a inveja lhe atormenta, afinal, Escobar e Sancha tem uma filha, mas ele e Capitu não. E ele acredita de verdade que eles necessitam de uma criança para que sua felicidade fique completa. Nasce Ezequiel. Mas a felicidade dura pouco, porquê Bentinho começa a desconfiar da paternidade do menino, especialmente depois da morte de Escobar. Ver Capitu chorar no enterro no amigo o enlouquece de ciúmes, mais uma vez.
E com essa trama Carvalho consegue criar uma das cenas mais dramáticas e tensas de todo o episódio, e também de toda a série: a cena em que Bentinho se convence por um breve momento de quê matar Ezequiel envenenado seria a solução do problema. E depois ele fica histérico e grita “eu não sou seu pai”, atraindo a atenção de Capitu e em seguida brigando com ela. E durante toda essa cena, não tem como não em pensar em como Michel Melamed é um ator simplesmente fantástico. Como o amargurado Dom Casmurro e o passional Bentinho, ele conseguiu ser o destaque de um elenco maravilhoso. A própria Maria Fernanda Cândido também faz excelente trabalho nessa cena.
Depois disso, os dois decidem que a separação é inevitável. Vão para Europa, onde Capitu fica com Ezequiel, nunca mais vendo Bentinho, cujas viagens a Europa são realizadas como disfarce para o fato de que ele havia deixado a família, em uma época em que as pessoas não simplesmente se divorciavam. E Bentinho passa o resto de sua vida sozinho. Mas, francamente, acho que ele é solitário por grande parte de sua vida adulta, mesmo quando Escobar ainda estava vivo. Pelo menos em sua mente, sempre havia uma parte seja da existência de Capitu, seja da existência de Escobar, em que ele não se sentia incluído. E havia uma parte de suas existências, seus sentimentos, seus pensamentos, que eram vedados a qualquer um.
Ezequiel ainda volta, mas depois de um tempo, parte depois de um tempo para a Grécia, e lá falece. José Dias, Dona Glória e o resto de sua família falecem. Capitu falece enquanto na Suíça (em uma cena particularmente bela por fazer uma ligação com a cena do primeiro beijo do casal). E Bentinho, corroído por suas desconfianças e seu desamparo, torna-se Dom Casmurro.
A única coisa que desaprovo nesse final, é justamente o fim. O samba foi menos agressivo a meu estado de estupor fantasioso que a música de Marcello D2 no episódio anterior, e mostrar a modernidade é algo que Carvalho faz ao longo do episódio todo (o telefone celular; os fones de ouvido no baile, como se estivessem todos ouvindo seus Ipods, isolados do mundo e um dos outros), mas eu não achei a escolha mais orgânica. Eu preferia que a cena anterior fosse o fim, e que pudéssemos terminar essa saga sensacional ao som da igualmente bela Elephant Gun, da banda Beirut, que para sempre me lembrará dessa pequena obra de arte e pérola da Televisão brasileira que a Tv Globo nos deu.

Luis Fernando Carvalho é o meu diretor brasileiro favorito. Diretor das mini-séries Os Maias (que meus pais não gostavam que eu visse, mas que eu assistia mesmo assim), Hoje é Dia de Maria, A Pedra do Reino e do filme Lavoura Arcaica (meu filme brasileiro favorito), estreou ontem na Globo seu mais novo trabalho, Capitu, inspirado no livro de Machado de Assis, Dom Casmurro. Machado, que tem sido celebrado esse ano mais que nunca, devido a seu centenário, e Casmurro, cujo livro eu fui ordenada a ler na escola, mas que nunca terminei, me pareceram uma escolha acertada para um diretor que tem um histórico em pegar obras literárias difíceis e adaptá-las com criatividade ímpar.
As escolhas narrativas diferenciadas, o lirismo e o apuro técnico e a ousadia estética que sempre apreciei em Carvalho estão presentes. O jeito é como a série se apresenta é bem teatral, principalmente em sua cenografia e na maneira como os atores representam.
Esse primeiro episódio nos apresenta a alguns dos personagens principais e trata da descoberta de Bentinho dos seus sentimentos por Capitu, depois de ouvir José Dias comentar sobre eles com sua mãe, ao mesmo tempo que a recorda de sua promessa de mandar Bentinho ao seminário para ser Padre.
Ver Capitu é quase como ver uma poesia. A estória não evolui tão rápido quanto o de uma série comum, e se é de propósito eu não sei, mas é extremamente pertinente. A série é sensorial, para ser experienciada, degustada. É bela, porém não possui aquela estética americana, mas um exótico elegante. O elenco, em especial, Eliani Giardini como Dona Glória, Cesar Cardadeiro como o jovem Bentinho e Letícia Persiles como a Capitu moça, está afiadíssimo. Mas acho que se tivesse que definir qual o meu elemento preferido nessa primeira parte da Micro-Séries, eu teria que dizer, sem hesitar, a trilha sonora. Adorei todas as músicas, do começo ao final, e achei que elas se encaixam muito bem com o tom lúdico que o diretor tenta criar.
Eu não tenho visto muitas coisas na televisão ultimamente. Principalmente na Rede Globo. Mas Capitu, a despeito do horário (que para quem não pode acordar tarde como eu, é um estorvo), Capitu é imperdível.


Categorias

Comentários

luiz augusto em The Day of the Triffids
karina em Much I Do About Nothing…
andreia em Eles estão voltando…

Blog Stats

  • 201.386 hits

Todas as atualizações do seu blog favorito

Me Adicione no Technorati

Add to Technorati Favorites