Séries Addict

Archive for janeiro 2010

Estou afastada daqui há algum tempo, e os motivos são vários, mas principalmente a falta de tempo. Contudo, minha paixão pelas séries jamais me permitiria ficar afastada para sempre da atividade de blogueira, e por isso tenho planejado um novo blog para esse novo ano. Renovação é a chave para melhorar e como dizem os ativos de Dollhouse “I try to be my best”. Mas estou com saudades de escrever e com algum tempo em mãos (férias da faculdade) e resolvi fazer algumas aparições por aqui enquanto o novo projeto não sai. A primeira é para comentar a Minissérie da BBC “The Day of Triffids”.

É engraçado como há alguns anos eu não poderia ser descrita como uma fã de sci-fi de maneira alguma. Tirando Idependence Day e os novos Star Wars eu corria de praticamente tudo que tivesse cara de ficção científica, e na época é claro que eu ainda não tinha um conhecimento adequado do gênero para entende-lo como algo que pudesse ir além de monstrinhos do espaço. Lost e Terminator: The Sarah Connor Chronicles me apresentaram para todo um novo Universo dentro da TV, e eu gostei. Eu gostei muito. A maneira como algumas obras de sci-fi conseguem apresentar questões complexas de maneira muito mais profunda e intrigante (e divertida) que muitos dramas, me atraiu mais e mais para o gênero.

O fato de eu ter sequer considerado a possibilidade de assistir The Day of the Triffids vem desse novo interesse, junto com um elenco estelar liderado por Joely Richardson (de quem senti tanta falta na temporada passada de Nip/Tuck que teria visto a minissérie só por causa dela, sem problemas), Dougray Scott (aka o carinha de MI2 cujo nome eu tenho que ficar checando no IMDB, porque não consigo lembrar) e o fantástico Eddie Izzard, e com os coajuvantes de luxo Vanessa Redgrave e Brian Cox. Apesar da minissérie ter apresentado uma série de problemas, eu gostei por algum motivo misterioso (ou não tão misterioso, porque meu apego imediato a coisas ruins é quase tão pungente quanto a minha necessidade maníaca de ficar abrindo parenteses nos textos), e acho que considerando o plot a coisa poderia ser bem mais ridícula.

Day of the Triffids 2

Afinal, só a BBC para fazer assistir uma minissérie sobre plantas gigantes carnívoras que conseguem se movimentar e se comunicar entre si, e não ser uma bomba. As plantinhas em questão, as Triffids do título, são naturais do Zaire e foram descobertas por um casal de botânicos, os Massen. Enquanto mamãe Massen era altruísta e queria entender as plantas, o que a levou a ser morta por uma delas, Dennis Massen, personagem de Brian Cox, descobriu que elas produziam um óleo capaz de substituir os combustíveis fósseis e voltou para a civilização para nos ensinar como explorar esse novo milagre, que além de acabar com a nossa dependência do petróleo, acabou também com o Aquecimento Global.

Atualização interessante do livro, onde na verdade as Triffids eram uma modificação genética feita pelos Soviéticos. Por mais que na época essa abordagem fosse interessante, hoje em dia seria cansativa, mesmo se eles fizessem a também já batida troca de comunistas por terroristas. Aliás, Patrick Harbinson merece os parabéns por não cair nessa armadilha e mesmo que a questão ambiental não seja uma roupagem exatamente muito criativa, tornou a storyline relevante. E não conseguir esse feito era o maior risco de fracasso sobre a cabeça dele.

Tirando a maneira idiota que os heróis usam para escapar das plantas no final (na verdade, se você refletir, não é tão idiota, mas no vídeo parece estúpido, e o flashback não ajuda) e o fato de que nunca fica esclarido o que de fato é preciso para se matar uma Triffid, a mitologia ao redor das plantas é interessante e é a parte mais sólida do roteiro. Ou melhor, a única parte sólida do roteiro.

Day of the Triffids 3

O maior problema da série, na minha opinião, é informação demais para tempo de menos. Junto com a fuga das Triffids e o ataque delas a humanidade, ocorre um fenômeno solar que deixa a maioria da população cega. A trama a la Ensaio da Cegueira (com o porém de que Triffids é anterior ao livro de Saramago, e portanto não é a cópia, mas a possível inspiração) é interessante, mas com tudo mais que acontece, todos os temas sobre a natureza humana que poderiam ser explorados não são nem arranhados. E com isso entramos no segundo problema maior da produção: os protagonistas.

Fiquei extremamente decepcionada com Joely na primeira parte da Minissérie, porque na segunda ela até parece relaxar e ficar mais à vontade em cena. Mas não posso culpa-la somente porque Jo, a radialista vivida por ela, é uma tela branca do pior tipo. Com um roteiro focado inteiramente na situação e na ação, Jo não tem desenvolvimento absolutamente nenhum e nós nunca descobrimos quem ela é como pessoa. Nenhuma característica, nenhum traço marcante de personalidade, nada.

Joely consegue entregar muito bem a intensidade esperada dela nos momentos mais dramáticos da segunda parte, mas na primeira parte ela falha vergonhosamente aqui e ali. O problema maior dela na verdade é o mesmo de Dougray Scott, diálogos ruins que eles não conseguem fazer soar convincentes ou naturais.

Day of the Triffids 4

Assim, temos vinte e cinco minutos de intensidade absoluta e cenas impressionantes, em especial a da tempestade solar. Dougray é ótimo retratando o momento desesperador de seu personagem com a possível cegueira, Joely segura muito bem a sequência tensa em que Jo encontra cegos que tentam tirar vantagem dela e Eddie Izzard entra muito bem em cena. Mas então entramos em uma longa jornada de caminhadas por Londres pós-apocalipse, cenas não tão interessantes, conversas sofríveis e a minissérie não se recupera até o próximo grande ataque das Triffids: o ataque a milícia de Jason Priestley no supermercado.

Não se enganem, contudo. Priestley não é importante, e qualquer discussão moral que pudesse ter sido levantada pela tática de sequestrar pessoas com visão e algemá-las a pessoas cegas para que elas cuidassem de seus companheiros incapazes é jogada pela janela em prol do personagem de Izzard, um tirano wannabe, que acaba sendo um personagem fantástico devido a composição perfeita de Izzard. Porque se não fosse por ele, duvido muito que o tema já batido de obsessão por uma mulher e obsessão pelo poder fossem ser muito impressionante ou assustador.

Day of the Triffids 5

Voltando a Bill e Jo, contando com a falta total de química entre Scott e Joely na primeira parte, além da aparente indecisão do roteiro sobre o status romântico do casal, a segunda parte se torna muito estranha quando eles repentinamente começam a agir como se tivessem sido amantes a vida toda. Estranho, mas aceitável. Quer dizer, aceitável até certo ponto. Porque eu engoli quando a Jo desaba em choro ao ouvir que Bill morreu, porque o cara salvou a vida dela umas cinco vezes no intervalo de pouco mais de uma hora, e já tinha ficado claro que ela não pretendia ir nem na esquina se ele não fosse junto. Eu engoli o adendo feito através da cafona e desnecessária narração em off sobre a preocupação repentina de Bill com Jo ter ficado nas mãos de Torrence quando ele foi mandado para sua execução, ou com o fato de ela estar na cidade cada dia mais infestada de Triffids. Até mesmo engoli o reencontro entre lágrimas e gargalhadas do dois, porque foi praticamente a única parte da minissérie em que Joely e Scott conseguiram demonstrar alguma emoção e porque eles não ficariam feliz em se reencontrar, né? Mas não engoli aquela dancinha sem sentido no quarto e o beijo pareceu fora do lugar. E não engoli que ele conhece duas meninas órfãs e as adota, e cinco minutos depois ele e Jo, mais Susan e Imogen, já estão vivendo como uma família feliz. Ficou forçado. Ficou esquisito. Jo nem conhece as garotas direito, e na cena seguinte já está contente em ser chamada de ‘mamãe’ por uma delas.

Day of the Triffids 6

Tudo isso retorna para o problema do tempo. Tudo isso poderia ser resolvido se houvesse mais tempo. Jo e Bill poderiam ganhar personalidade, e Joely e Scott não ficariam se saber como se comportar em cena (porque acima de tudo, acho que eles pareciam perdidos); poderíamos explorar melhor as questões morais daqueles acontecimentos; o plano do Major de Jason Priestley poderia ser mostrado melhor e discutido melhor e os personagens de Redgrave e Cox, que eram ótimos (e Redgrave teve as melhores falas de toda a minissérie) poderiam aparecer mais um pouco, nos agraciando com o talento fantástico desses dois. The Day of the Triffids se sairia muito melhor se fosse uma série, e considerando que as séries da BBC são pequenas, geralmente oito episódios por temporada, eu acho que ela não sofreria tanto com falta de material que definharia. Afinal, tinha muito material ali!

Ouvi dizer que o material original é muito bom, então penso que não pode ser o livro “The Day of the Triffids” que eu encontrei na Internet, porque se for, Harbinson transformou água em vinho. Porque o negócio era de chorar, de tão ruim. E The Day of the Triffids pode não ser a melhor obra se sci-fi do ano, longe disso, mas também não é ruim. Tem seus problemas, mas tem seus momentos. Vale uma conferida, se você estiver com três horas sobrando.

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Comentários

luiz augusto em The Day of the Triffids
karina em Much I Do About Nothing…
andreia em Eles estão voltando…

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